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Mari Mari, 19. Fotografia & Sex Pistols & Cinema Trash. @mriczr no instagram.

sábado, julho 04, 2015

Gabriel

A gente sabia que o Gabriel era doido pra caralho. Mas todo mundo meio que levava na brincadeira.
Nós nos conhecemos no fundamental. Sétima série, eu era novo na escola porque tinha sido chutado pra fora da última. Ele foi o primeiro a me receber numa boa, mas os outros caras não demoraram muito para me acolher depois dele.
Bem, você com certeza já levou uma nota baixa ou saiu na porrada, mas o Gabriel era perfeito. Ele fazia tudo absolutamente certo e ainda era bonito pra cacete, então todo mundo sempre gostou dele.
Éramos quatro no nosso grupo: Diogo nunca tirou uma nota acima da média na vida, Thiago era o estereótipo perfeito do gordo chato, e eu levava suspensões periódicas. E tinha o Gabriel, claro. Ele não tinha nada de errado. Aparentemente, pelo menos.
Aqui vai o que eu sabia sobre ele: Gabriel queria ser médico, o que gerava bastante discussões no grupo, já que a única chance que o Thiago tinha de pegar alguém era com o Gabriel do lado, mas a verdade é que ele constantemente trocava as festas por noites de estudo.
Ele apanhou do pai até ter mais ou menos 13 anos, quando o cara foi preso.
Uma vez nós fomos ver um filme na casa dele, e o filme era um curta de 30 minutos sobre um legista que transava com um cadáver ao som de música clássica. Depois eu fui descobrir que o filme está liberado no youtube, se você tiver mais de 18 na sua conta.
Gabriel riu os 30 minutos inteiros. E nós rimos também, só que por nervosismo. Ou então porque ver nosso amigo rindo de uma coisa tao bizarra era, no fundo, engraçado mesmo.
Isso foi há 15 anos. Agora Diogo está desempregado, Thiago está em um casamento infeliz, eu sou publicitário e Gabriel é médico legista.
Sempre fomos bons amigos sem grandes problemas, digo, era só evitar que o Gabriel escolhesse o filme e ficava tudo bem.
Toda sexta feira Happy Hour no mesmo bar. Dessa vez, discutíamos vícios. Diogo ama cocaína, Thiago ama prostitutas e eu bebo pra caralho.
- E voce, Gabriel? - Diogo insistiu. - Fala aí.
- Um vício? - Gabriel sorriu entre um gole de Whiskey e outro. - Eu...
- Nao enrola. - Eu disse.
- Ok. Eu como gente.
Diogo caiu na gargalhada. Mas durou só cinco segundo, quando ele percebeu a minha cara e calou a boca. Silencio total. Gabriel continuou:
- Nada demais. - Ele parou pra dar mais um gole na bebida - De vez em quando eu faço a autopsia de alguém muito jovem, sabe como é, aí é só pegar um pedaço de algum órgão interno que ninguém vai dar falta pra enterrar.
Thiago engoliu em seco enquanto ele relatava que já havia provado Fígado, cérebro e coracão.
- É realmente meio viciante quando você começa. - Gabriel completou.

Depois daquele dia, nenhum de nós nunca mais falou com ele.